Solitário - Capítulo 29: À Caça

A cada passo que eu dava, podia sentir a textura da terra e das pedras sob meus pés, mesmo que com botinas militares – ainda as minhas. O cálido vento cortava a minha face afirmando que aquela não seria, talvez, uma boa noite para encontrar pessoas andando por aí a estas horas. Se os encontrasse, seria por sorte. Ou azar...

Mesmo com a pouca ou quase nenhuma claridade que a Lua nos proporcionava, eu podia ver detalhadamente tudo a minha volta: eu estava andando por calçadas de pedras delicadamente encaixadas umas ao lado das outras formando mosaicos acinzentados; várias árvores com poucas folhas nos galhos e incontáveis jazidas no chão – se não soubesse que esta cidade tivesse pessoas morando, poderia afirmar indubitavelmente que seria um lugar abandonado. Cada breve envergadura do tronco das árvores, cada detalhe das casas mal-feitas em pedras e barro seco após ter sido pintado com leve tonalidade amareladas e vermelhas, também havia algum azul perdido nos detalhes de algumas casas, eu os enxergava como se estivesse em plena luz do Sol do meio-dia.

Minha visão era perfeita em qualquer situação na qual pudesse me encontrar, fosse dia, fosse noite, eu estaria no comando. A não ser que houvesse outros de minha espécie por aqui – o que havia, mas não eram rivais. Lucy e Nettie estavam com outros em outras cidades da região.

Não que eu não gostasse deles, mas eu estava indo a caça, portanto sou eu o único que deveria manter o poder sob a área. Eu era o caçador aqui, e me incomodava saber que eu teria de dividir a minha presa, a minha fonte do mais doce vinho com outra pessoa... ou vampiro, melhor.

A única que nunca me incomodou foi Maria, minha querida companheira dos mais diversos momentos pelo qual fui obrigado a passar. Muito pelo contrário, eu até a convidava para me acompanhar ou então me oferecia para lhe acompanhar, obviamente lhe fazendo sempre o serviço mais complicado de, às vezes, ter que os pegar e levar para outro lugar.

Mas neste momento ela estava na rua abaixo da que eu me encontrava, eu podia sentir o maravilhoso cheiro de toranjas de seus cabelos negros sendo levado pelo vento até mim me embriagando.

Obriguei-me a sair deste devaneio, apenas me faria perder tempo – mesmo que isto não me importasse tanto: não há um humano que possa fugir de mim.

Como eu disse, eu era o caçador aqui, e os que aparecessem por um infortúnio da vida à minha frente seriam minha caça. Infelizes aqueles que me divertirem... Aqueles, talvez, como este que sinto sair da porta de um estabelecimento escuro.

Era um homem, mas de aparência juvenil, com vitalidade. Ah, não há dúvida que este seria meu. Antes antes que eu o deixasse saber que ele corria perigo, o surpreendi cravando minha mandíbula em seu leve pescoço – não que os vampiros tenham que chupar sangue apenas pelo pescoço, acontece que ali há um fluxo de sangue maior. Uma dica: quem é que nunca ouviu as pessoas dizer que para se matar rapidamente alguma vítima com uma faca, eles apenas cortam a garganta?

Em menos de três segundos o corpo caiu seco no chão com um baque seco. O juntei e o coloquei dentro de uma grande lata de lixo que cheirava muito mal, uma mistura de dejetos humanos (sabe-se lá o porquê diabos aquilo estava ali) com alimento humano podre (ou estava em fase de decomposição). Assim que estivesse completamente satisfeito, eu voltaria e pegaria aquela lata e daria um jeito de escondê-la.

Ah sim, apenas a esconder depois de satisfeito, pois eu teria de me saciar por aqui, nesta rua de preferência. Quando a lata estiver cheia, procurarei outra coisa. Mas, por enquanto, a minha única preocupação é o motivo de um bar estar cheio de homens na esquina e nem unzinho ir embora, ou vir em minha direção.

Não me preocupo com os olhos destes, se estão bêbados, provavelmente nem serão capazes de formular uma simples frase, quanto mais sair gritando que há um vampiro sanguinário correndo pela cidade em busca de alimento. Sequer conseguirão ver direito, creio...

E era nesta tática em que eu me guiava para a parede que estivesse mais escura.

Um.

Outro.

Mais um.

Novamente mais um.

Ah, dois de apenas uma vez...

Eu podia dizer que estava quase que me saciando por completo, minha sede já não incomodava, o monstro dentro de minha cabeça apenas ria abobalhado com a minha fartura desta noite.

Mas eu não podia dizer o mesmo do meu senso de humor. Eu queria caçar, eu queria representar e aparecer a quem quisesse ver que eu era o superior, eu era quem ditava as regras do jogo e quem as comandava, podendo as mudar com a maior velocidade que se esperava. Eles, humanos, não eram nada – com exceção de meu alimento, obviamente.

Hoje estava sendo meu dia de sorte... e azar para minhas vítimas. Hoje eu estava para brincadeiras, e era isto o que eu estava buscando.

Após uma paciente espera por algum boboca desavisado, senti o melhor dos aromas do mundo: sangue. E estava fresco, provavelmente havia se envolvido em uma briga pelo bar – eu mesmo que ouvi uma bagunça e gritos.

Espiei com apenas um olho detrás da escadaria que me encontrava. Percebi que seria mais divertido se surgisse das árvores, portanto me postei atrás de um grande tronco de árvore – não que ele estivesse muito consciente para me enxergar mesmo se estivesse a palmos a sua frente. Bem, isto é o que veríamos em breve...

Cambaleando, dois homens vieram aos tropeços extremamente bêbados. Eu sentia isso pelo ar.

Não. Apenas um está bêbado, e machucado nos braço, o outro está apenas o auxiliando a andar, provavelmente o levando para a casa dele ou à própria casa. Mal sabem eles que não chegarão a lugar algum.

Eu estava tentando me controlar o máximo que podia. O cheiro de sangue pingando pelas ruas, mesmo que estivesse praticamente misturado a mais uma metade que havia em seu corpo com álcool, o que o tornava escrupuloso, nojento, me fazia engolir a seco.

Eu estava com sede novamente. Senti o veneno se acumular em minha boca, caminhando por entre meus dentes, quase que escorrendo pelos lábios, tudo antes que eu mesmo o mordesse.

O cheiro de seu companheiro sóbrio dançava maravilhosamente em minhas narinas. Deus, como aquilo estava me matando. E eles estavam demorando, esta tranquilidade humana me irritava às vezes.

Decidi não esperar.

Atravessei rapidamente a rua e os contornei indo parar a alguns passos atrás destes meros mortais. Ninguém me avistou, sequer pressentiu.

Caminhando a passos humanos, ridiculamente lentos, os acompanhei. O companheiro sóbrio em desespero olhou para trás para ver quem estava ali... infeliz, acabou por ter os sapatos banhados pela regurgitação do companheiro bêbado. Assustado olhou para frente e voltou-se para trás, sem deixar de caminhar, sempre.

Não havia motivos para me preocupar, eu estava bem em meu disfarce de humano – mãos nos bolsos da calça como se estivesse passando por ali casualmente, cabeça abaixada, nada de deixá-lo ver o vermelho lívido que provavelmente estaria meus olhos (mesmo que com esta escuridão ele não pudesse ver completamente bem).

Minha caçada estava dando certo, pelo menos eu sentia isto. Do bêbado, nada, apenas o sofrimento melancólico que todo bêbado sente ao perceber que mal pode dar alguns passos sem tombar ou dar de cara ao chão. O outro, ah sim, este estava me propiciando o melhor do jogo.

Nervosismo, ansiedade, medo... Há um bom tempo eu não via alguém sentir tantas coisas juntas ao me ver... Talvez eu me deixasse brincar mais vezes.

Eu tinha de surpreendê-lo, mas isto tinha de ser fora de vista, ou pelo menos tinha de matá-lo com maior cautela por conta da exposição – estávamos na esquina e um outro estabelecimento estava perto.

Sem preocupações: um saloon com as mulheres (aquelas de vida promíscua) e homens bêbados a se dar e vender.

De instantâneo, minha vítima olhou mais uma vez para trás, quem sabe conferindo minha posição. Antes que ele pudesse retornar completamente a cabeça para frente, eu já me posicionava parado feito uma estátua.

Embora eu tivesse andado com a cara abaixada, não resisti e olhei nos olhos de minha vítima. Melhor, minhas... Plural.

Assustado, ele soltou o pobre do bêbado, que foi com a cara de encontro às pedras do chão. Ao bater, ele rolou, e então percebi que seus lábios haviam sido cortados... Mais sangue, ah que maravilha!

Olhei para o que estava ao chão e depois desviei para o que estava em pé, que, aliás, me olhava atônito. Curioso, resolvi conversar com ele. Eu queria saber o motivo ao certo de sua expressão, de seus sentimentos.

“Boa noite nobre cavalheiro, por que me olha assim?”

Ele piscou duas vezes e então percebeu que era eu quem estava falando com ele. Ele piscou mais algumas vezes e pigarreou tentando limpar a provável falta de coragem ali entalada para responder.

“Bem, quem é o senhor? E por que me seguiu?”

“Seguir você? Eu apenas me obriguei a fugir das bebidas e por acaso me encontrei com os senhores” lhe respondi o mais simpático que lembrava ser.

“Mas não o vi bebendo lá...”

“Sim, mas eu estava.”

“Mas você não parece bêbado.”

“Sei quais são meus limites.”

Ele me encarou sem dizer nada, então tomou a coragem e me perguntou:

“Desculpe-me, senhor... Mas, você... você é doente da saúde?”

“Não. Por que diz isto?”

“Por que está tão pálido quanto uma estátua de mármore branco.”

“E isto lhe incomoda?” – eu estava conseguindo o que eu queria, percebi que adrenalina já corria em suas veias acompanhando seu doce e suculento sangue.

“Não, claro que não. Perdoe-me meus maus modos, senhor” ele disse envergonhado. E realmente estava, senti isto. “Mas, bem, então boa noite. Até mais ver...” e disse já tentando reerguer o infeliz do chão que chiava um pouco.

Assim que o conseguiu pôr em pé, tentou andar, mas eu ainda estava em sua frente. O que ele estava pensando? Que iria sair assim do jogo? Que conseguiria escapar ou fugir de mim? Nãao...

“Onde o senhor pensa que vai?” lhe perguntei com um maléfico meio sorriso. O terror o fez paralisar, quase senti pena pela expressão que seu rosto tomou forma. Quase.

“Olhe, é muita sorte encontrar um senhor, um jovem tão dedicado como o senhor por aqui conversando nesta hora difícil comigo, mas eu preciso ir embora. Tenho mulher e ela me espera em casa pr...”

“Será mesmo?” o interrompi ainda em minha expressão de antes, sem mover sequer um músculo por um milímetro – vampiros são bons nisto.

“Sim, bem, claro... er... só que... olhe, por favor, me deixe ir...” ele tentou dizer, mas gaguejou tanto que me irritou ao mesmo tempo em que me divertiu – só tomei cuidado para não influenciar no que ele sentia.

“Olhe, você pode chamar de sorte, mas eu chamo de azar!”

“Como assim?”

“Quer mesmo que eu lhe explique?”

“Hmm... qual... qual seu nome?”

“Isto importa?” lhe respondi fazendo cara de inocente.

“Bem, meu nome é Laurold Conrad. Eu tenho realmente alguém me esperando!”

“Não, não tem. Isto tudo é mentira, se tivesse mesmo alguém, não teria vindo buscar este saco de vômito aqui” lhe afirmei apontando com o rosto, ou com o nariz.

“Olhe, sei que este é um desgraçado...”

“Então me deixe cuidar dele. Por que não?”

“Não sei.”

Fui caminhando em sua direção pela primeira vez desde que me postei a sua frente. Cheguei delicadamente a frente do bêbado, e meti meus dedos em sua cabeleira nojenta e ensebada. O ergui do chão apenas segurando pelos cabelos, ele era um pouco mais baixo que eu, mas não era magro tanto quanto eu ou quanto o amigo sóbrio.

O bêbado então percebeu o que lhe estava acontecendo e olhou me encarando, olhos nos olhos, e de súbito, como se tivesse recobrado a consciência, como se tivesse acordado de um profundo sono gritou com um daqueles gritos que ecoam por quarteirões e quarteirões. O grito ecoou ricocheteando por tudo quanto era lugar, encher de pavor quem quer o ouvisse, inclusive ao amigo sóbrio que apenas o olhou incrédulo.

Não havia dúvida, ele havia visto meus olhos.

Ele chamou atenção demais, o que era o que eu estava – ou deveria estar – fazendo. Por fim, concluí que ele não me interessava: seu sangue não estava me cheirando bem por conta do álcool.

Mesmo assim, por alertar o que estava acontecendo, ele tinha de pagar. Apenas o joguei a alguns metros de distância, mas longe o suficiente para que ele batesse a cabeça ou qualquer outra arte do corpo e a quebrasse.

Se continuasse vivo e contasse o fato, provavelmente seria internado em um hospital para loucos. Caso não contasse, ficaria louco – quem é que consegue encarar vermelhos olhos lívidos e se manter em sã consciência?

Ao cair do outro lado do quarteirão – não ficando nem entre a rua que eu estava e a que Maria estava, mas a do outro lado, fazendo com que seu corpo atravessasse a rua e as casas voando como se fosse um pequeno pedaço de papel – voltei minha atenção para o que estava ainda em pé mortificado. Ah como eu me divertia em alguns dias...

“Ele é uma criaturinha de carne de muita sorte! Seu coração ainda está batendo” disse para quebrar o gelo em nossa conversa aleatoriamente.

Se ao menos conseguisse responder, tenho certeza que diria algo como: “O que é você?”, “O que você quer de mim?”, “Por que fez isso?”, “Como fez isso?”... mas eram todas as perguntas que ele não tinha coragem de dizer. O medo era tão forte em si que eu mal podia o ouvir respirar.

“Olhe, você é bem bonitinho, mas infelizmente é feito de carne” tentei ser simpático, à minha forma.

E então ele se despertou de seus devaneios e tentou fugir. Talvez, quem sabe se suas pernas não o traíssem...

Fui para cima dele e o suguei até a última gota que lhe restasse. Tudo ali mesmo na esquina, eu não me importava por hora com quem podia me ver. Se isto ocorresse, antes de tudo eu ouviria seu coração e respiração ou até os barulhos que fariam para ver o que estava acontecendo, e depois... bem, eu sou superior a eles, e eles são apenas humanos. Eu sou o mais rápido aqui, eu sou o topo da cadeia alimentar, como bem disse Maria.

Seu corpo caiu sem vida no chão, e então me lembrei que deveria limpar toda aquela sujeira – no bom sentido, pois eu não havia me sujado. Maria havia me ensino a fazer isso sem sujar, e não havia caído uma gota no chão. Nem uma prova do crime. Por enquanto.

Peguei o corpo do senhor Lauraldo, creio eu, – seu nome não me importava – e o levei até a lata de lixo. Abri a tampa e encontrei alguns outros corpos. Não havia mais sangue em nenhum dos cinco corpos ali dentro.

Empunhei a imensa lata e corri para fora da cidade – nós deveríamos nos encontrar lá fora perto da meia-noite – para enterrá-la. A depositei no chão e arranquei uma grande árvore. Suas raízes criaram uma grande vala o que deixou que a lata coubesse perfeitamente no local – apenas precisei cavar um pouco com as mãos para que depois a árvore fosse posta em cima como se nada houvesse acontecido.

Depois de posta a lata e a árvore devidamente em seu lugar, arrumei a terra e fui me encontrar com os outros no local combinado.

Ao dar as costas à árvore, percebi o quão bem feito eu tinha trabalhado – o bêbado não contava como evidência de ataque. Sem provas, sem crime. E eu estava livre para me encontrar com Maria novamente.

No local combinado, perto da entrada da cidade, encontrei Maria e mais dois já me esperando um pouco impacientes.

“Por que demorou? Não se lembrou do combinado?” disse Corey, o que fazia as pessoas desaparecer se assim o quisesse – agora pensando, ele não podia pensar em querer as pessoas longe dele, senão, como é que se alimentaria?

“Não esqueci, mas tive de me livrar das provas. Por quê? Por acaso você não se esqueceu, não!?” lhe perguntei inocentemente. Havíamos começado a correr de volta a nossa clareira.

“Não. Eu limpei tudinho, do mesmo jeito que fui ensinado.”

“Que bom que fez certo Corey” disse Maria esbanjando felicidade e fartura. “Aliás, que foi aquele grito? De quem foi a vítima?” ela quis saber olhando para todos.

“Bem, fui eu” lhe disse tentando a manipular aos poucos para que não percebesse a onda de tranquilidade que emanava para ela.

“Hmmm... e como estava?”

“Apetitoso” – e maravilha, ela não percebeu.

“Você é esquisito, cara. Você faz o cara gritar para depois beber dele?” Corey me perguntou rindo.

“Olhe só quem está me chamando de esquisito. Não sou eu que faço as pessoas desaparecerem quando você toca nelas!” retruquei.

“Ah é!? Então quer sumir, é!? Deixa-me tocar em você, já já...” ele disse se esforçando para chegar a mim, mas eu era mais rápido que ele.

“Nem vem... Eu sou melhor que você! Você não chega a mim” o desafiei.

“Então veja só...” ele disse correndo quase até mim. Quando já se encontrava ao meu lado, obviamente que eu iria manipular suas emoções. O controlei com uma impactante onda de tranquilidade. Tranquilidade o suficiente para derrubar um animal de grande porte, talvez um elefante.

Ele se desequilibrou e então lhe tirei da onda. Ele retornou a correr e então Maria veio ao meu lado.

“Muito jeitoso da sua parte.”

Ri em resposta e continuamos a correr em direção à clareira. Em pouco tempo soube que já estávamos quase lá, então me permiti ir mais devagar. Se fosse ainda humano, diria que seria para que o estômago fizesse a digestão.

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