Meia-Noite Envenenada - Capítulo 06: Uma Lembrança Vazia

Layla observava tudo. Ela não movia o corpo – estava perfeitamente estática como uma verdadeira estátua de mármore perolado deveria ser – mas os seus olhos variam curiosamente o ambiente da sala e se demoraram particularmente sob a foto em cima do piano branco de Edward. Era uma foto não tão velha – tirada na festa de natal há dois anos que havíamos feito para Renesmee – e estávamos todos nós nela; a minha família, os lobos que haviam concordado ficar conosco, Charlie e Sue, e Billy – em um retrato feliz em que ela não estava. Certamente Layla havia reparado nisso tanto quanto nós agora e de alguma forma eu senti que gostaria que ela estivesse na foto… Como parte dessa família… Eu sentia como se agora todos os nossos registros familiares estivessem desatualizados, velhos e sem sentido. Incompletos sem ela.

Emmett e Alice – eu não sabia como Jasper havia permitido isso – assim como os lobos com a exceção óbvia de Jacob, saíram para procurar os nossos convidados já que finalmente o momento havia nos alcançado. Apesar da preocupação e do medo que provavelmente nunca deixaria a adrenalina que percorria o meu corpo, eu sentia com os progressos que finalmente estávamos prontos para o destino que aguardava no silêncio sombrio antes da tempestade. Carlisle e Esme eram os mais próximos de Layla e abrandavam a mesma expressão veraz e decisiva que sentia formada no meu rosto – apesar de também estarmos com os pensamentos ocupados em outra coisa.

O comportamento de Layla era um tanto inesperado e a confusão curiosa no seu oceano particular era intrigante. Nós continuávamos á observá-la – Jasper com a sua habilidade especial que por algum motivo ela havia permitido entrar em contato com suas emoções de certa forma e, talvez Edward lendo tudo isso á sua maneira. Eu sabia que ele ainda não ouvia os pensamentos de Layla e também imaginava porque, mas contava com a mínima chance de Edward ainda não ter notado que ela escondia algo de nós – não queria vê-lo mais preocupado do que estava… Isso me machucava. Mas… Apesar de Layla ser relativamente diferente de sua espécie inquieta, eu ainda não entendia como poderia agradá-la ter as emoções manipuladaspor Jasper – uma safira, a segunda da linhagem mais perigosa que existiu, não deveria suportar isso.

- Ele é realmente talentoso… – Layla de repente estava olhando intensamente na direção de Jasper, mas eu sabia que ela estava nos respondendo. Sua voz entre o silêncio soou despertando a confusão e a cautela dele. – Os poderes são mais fortes do que vocês julgam; manipular emoções, mesmo de seres tão impenetráveis… Não há muitos como Jasper por aí, ele está nessa categoria acima de vampiros, um passo mais perto das safiras do que vocês… E ele nem mesmo sabe a magnitude de sua habilidade extraordinária… – um sorriso cresceu em seus lábios. – Eu não conseguia mais impedi-lo de entrar em contato comigo, estava sendo doloroso de certa forma… Irritante!

- Jasper é um vampiro mais poderoso?! – Alice expressava nossa confusão.

- Carlisle já pensou sobre isso, uma vez… – seu rosto voltou-se sorrindo até ele, movendo-se pela primeira vez depois de tanto tempo. – Jasper talvez não visse tantas mudanças em relação aos outros vampiros, pois o mundo de fora sempre foi estranho á ele, devido sua habilidade… Sentir e controlar emoções o anestesiou evitando que as diferenças fossem perceptíveis no seu modo de vida. Ele se acostumou com o estranho e o diferente, por isso não julgava que fosse realmente isso. Em seu modo de enxergar, o normal para a sociedade é que as pessoas sempre eram… Distintas dessa forma!

- Como você… – Alice parecia sem palavras. – Como você sabe de tudo isso?

- Não é preciso ler os pensamentos dele para saber como Jasper pensa… – certa malícia estava sugerida em seus lábios curvados. – Ele me lembra muito alguém… As safiras têm uma percepção de quando há perigo para nós, um calor diferente que sobe no corpo queimando nas veias, e Jasper representa exatamente isso! Eu consigo sentir sua presença mais intensamente do que a de vocês, tanto quanto Carlisle, mas a única ligação possível para nós é essa classificação mais próxima na evolução! Ele é umAeon, como são chamados vampiros apenas um pouco abaixo de nós… Especiais, de fato!

Ainda estava muito calmo enquanto processávamos aquela informação nova e que ainda assim parecia totalmente adequada á Jasper – eu sempre sentia que ele era o mais perigoso dos Cullen e agora então vi que sempre estive certa. As palavras de Layla trouxeram também outra percepção para os meus pensamentos; enquanto achávamos que não havia mais nada pra se aprender no mundo dos vampiros, ainda havia tantas histórias mais das quais nunca havíamos ouvido falar que me deixavam fascinadas por ser parte de disso. Primeiro com Renesmee, agora com Layla e Jasper. Imagino que essa tenha sido a vida que Carlisle sempre quis… De certa maneira.

- Está na hora… – o comentário de Layla me pegou despreparada e me deixou confusa. Todos olharam rapidamente para a eterna e cintilante beleza dela tentando entender o que havia mudado quando visualmente nada parecia diferente. – Alice e Emmett estão chegando em breve!… Você está certo de que quer participar disso?!

A pergunta foi diretamente á Carlisle, mas não houve uma resposta verbal – e nem era necessário. Com um profundo suspiro determinado e um elegante gesto de cabeça, Carlisle simplesmente concordou durante uma intensa troca de olhares.

Não havia mais o que pensar, nós estávamos preparados…Apenas esperando.

O vento deslizando rapidamente pelo meu corpo era a sensação que eu mais gostava no mundo inteiro – perdia apenas para as sensações que dominavam o meu corpo quando eu estava com Edward e Nessie – simplesmente era muito libertador e reconfortante poder voar sobre o verde da floresta enquanto nos aproximávamos de momentos mais sombrios que decidiriam nosso futuro. Os meus dedos presos firmes na mão de Edward intensificavam a adrenalina e a vivacidade que me percorriam e era inevitável a corrente de alegria que me dominava ao ver Renesmee agarrada em suas costas delineadas. Eles eram as pessoas mais perfeitas que eu havia visto.

Mais uma vez todos nós estávamos juntos correndo para encarar o destino – a fúria dominando cada pensamento nos fazia ainda mais velozes e insensíveis. Jacob e Seth eram os mais próximos de nós – com suas reconfortantes e grosseiras formas de lobos gigantes – assim como Alice e Jasper – com as suas mãos também intimamente entrelaçadas. Eu me sentia completamente segura por ver toda minha família unida, mas nada me tranqüilizava mais do que a presença da safira de olhos intensamente azuis que nos guiava alguns passos á frente. Layla estava na nossa velocidade.

Eu sabia que aquilo deveria estar sendo um pouco monótono para ela, mas os meus pensamentos gostaram da idéia de que Layla não se importaria de correr com o nosso compasso – tão lento para ela – contanto que isso significasse que ela estava conosco. Emmett tentou alcançá-la algumas vezes com seu sorriso divertido por uma competição – certamente ele estava um pouco incomodado com a liderança que ela exercia sobre nós por estar na frente de todos – mas então sem que percebêssemos Layla já estava muitos metros á nossa frente se virando apenas com um sorriso para o descontentamento de Emmett. Algumas vezes nós a perdíamos de vista quando os seus instintos a faziam correr mais rápido, mas então depois de alguns segundos nós a encontrávamos encostada em alguma pedra ou então debaixo de uma árvore.

Layla tinha os passos absurdamente elegantes – de uma maneira tão perfeita que era simplesmente impossível desviar os olhos – e a sua pele branca como seda e porcelana faziam um contraste magnífico com a penumbra e a névoa da floresta. As suas roupas e o movimento de seu corpo ainda a deixava com um aspecto selvagem, mas não havia como recusar a graciosidade que exalava dela. Eu me perguntei se sua pele tinha a mesma textura delicada que aparentava – tão natural que ela lembrava a irmã mais perfeita de algum deus da beleza – enquanto que seu cabelo totalmente liso contra o vento a deixava ainda mais suave. Layla parecia mais uma ilusão.

Uma suave claridade do sol penetrou pela escuridão e pela névoa da floresta enquanto eu admirava a sua figura elegante, fazendo um delicado brilho em sua mão ofuscar a minha visão suavemente por alguns milésimos de segundo. Não demorou muito para que eu percebesse o que havia causado aquilo, mas não pude controlar a expressão de surpresa no meu rosto quando vi o anel de ouro em sua mão esquerda. Foi necessário certo esforço para recolocar os meus pensamentos em ordem a fim de não fazer com que mais alguém reparasse no meu olhar chocado – também tive que me concentrar para continuar correndo na mesma velocidade embora o desejo fosse de parar. Os meus dedos instintivamente sondaram o anel na minha mão esquerda – a aliança que representava o meu compromisso com Edward… Uma aliança de amor.

Eu já fui casada… A voz suave de Layla soou na minha mente me assustando – não por ter me pego de surpresa, eu sinceramente já havia me acostumado com isso – mas porque as suas palavras vagamente afetuosas falaram o que eu nunca esperei ouvir dela. Os pensamentos correram desorganizados na minha cabeça – eufóricos – e eu não conseguia me concentrar o suficiente para acalmá-los. A minha curiosidade insana pelos seus segredos começou a travar batalhas com o último vestígio de razão na minha cabeça que dizia que eu não devia me intrometer nos assuntos dela. Ouvi risadas divertidas ecoando na minha mente de novo – certamente achando graça do meu conflito interno – e empenhei para me recuperar. Você gostaria de ouvir a minha história, Bella? Reconheci a vaga diversão no seu tom. Eu gostaria de lhe contar!

E eu gostaria de ouvir, eu pensei. Sempre estive muito curiosa pelo que ela fez durante todos esses anos – sua história me intrigava, qualquer que fosse ela.

Depois que eu abandonei Carlisle e Edward eu passei muito anos da minha vida viajando pelo mundo totalmente sem rumo. Estive em lugares lindos, mas nem mesmo pude aproveitar a beleza deles tamanho era o meu sofrimento. Eu demorei um tempo… Muito tempo para compreender a importância da decisão que tomei; muitas vezes tive de me controlar para não voltar ao único lugar que eu tinha sido verdadeiramente feliz, onde eu tinha sido amada… Layla suspirou profundamente nos meus pensamentos. O sofrimento de Carlisle era o que mais me angustiava. Eu disse antes para vocês, safiras têm essa ligação especial com quem nos transforma e mesmo muito longe, eu o sentia. Mas, nem ousava pensar em Edward… Isso seria mais do que eu conseguiria suportar… E enfim… Depois de tudo isso, eu finalmente fui capaz de decidir o que eu queria para a minha existência. Eu queria conhecer mais sobre safiras; entender o que eu realmente era, a magnitude dos meus poderes… É desagradável não saber sobre as suas origens e as suas habilidades, então passei os anos seguintes empenhada em descobrir tudo.

Em 1935 as minhas pesquisas me levaram para a cidade de Vasteras no interior da Suécia. Uma das únicas vezes que passei tantos anos da minha vida em um lugar só. A voz de Layla nos meus pensamentos estava distante assim como eu estava – quase oitenta anos no passado para ser mais exata – tentando imaginar o que ela contaria a seguir. Eu estava com meu melhor comportamento naquela época – haviam passado dezesseis anos desde que Carlisle me transformou e estive sozinha desde que os deixei – então, com a minha profunda solidão, e o controle muito bem definido, eu me permiti interagir mais com os humanos… Havia um pequeno sorriso na sua voz. Sempre achei fascinante a habilidade deles se organizarem socialmente e serem capazes de viver em harmonia. Eu me imagino tentando viver com outra safira e não acho que conseguiria – em menos de segundos uma das duas estaria queimando, com absoluta certeza.

O enigma que o mundo representava pra mim estava me deixando tão intrigada que eu quase esqueci os propósitos da mudança para Vasteras, então obriguei a minha mente a se concentrar no que era realmente importante e por muito tempo eu ignorei novamente a existência dos humanos, mas eles continuavam a me encantar… Algumas vezes me via perdida novamente nos seus segredos. Layla soltou um suspiro nos meus pensamentos parecendo meio entediada – talvez aborrecida. Em 1936 eu visitei uma biblioteca talvez tão antiga quanto Carlisle era naquela época, que preservava todos os principais documentos da história do mundo – inclusive lendas de vampiros e criaturas simbólicas que haviam supostamente existido até então – exatamente o que precisava. Acredite ou não, mas essas histórias que contam hoje em dia são daquela época.

Visitei aquela biblioteca tantas vezes que com o tempo acabei reconhecendo as pessoas que sempre estavam lá comigo… Alguns vampiros aparecerem, apenas curiosos, mas eu bloqueei o meu cheiro para que eles não me notassem lá – ele é mais doce do que o de vocês, muito forte e chama muita atenção, eu não me sinto agradável com isso… Mas enfim, um humano em particular despertou a minha curiosidade… Seu nome era Lukkardios Donessön, mas gostava de chamá-lo de Lukas… Ele trabalhava na biblioteca, o único que se habilitava á todas as noites cuidar de livros e de documentos mais antigos que seus vinte e três anos de idade. O mais interessante é que mesmo tão próximo da realidade do que eu era – escrito em tantas páginas daquele lugar – nunca, ele se sentiu intimidado para se aproximar de mim. Todos os dias ele me oferecia ajuda ao perceber que eu constantemente visitava aquele lugar sem encontrar o que queria – a maioria das definições de safiras não eram tão reveladoras quanto eu gostaria – mas é claro que eu nunca aceitava a sua ajuda. Eu não podia arriscá-lo, era perigoso.

No começo fiquei um pouco receosa com essa atitude de aproximação de Lukas, mas a minha curiosidade por ele era tão grande que o deixei se aproximar de mim… A alegria que contagiava os seus olhos verdes toda vez que ele me via naquela biblioteca também me contagiaram e apesar das minhas constantes recusas á sua ajuda, ele não se manteve longe de mim… Isso me deixava intrigada pelos humanos, novamente. Eles nunca fizeram muito sentido para mim, mas Lukas era de longe o mais diferente deles. Eu senti vagamente que na voz de Layla havia certo tom de admiração. Após muitas noites, simples palavras se tornaram conversas mais profundas e eu me vi encantada… Cheguei a inventar pesquisas que não me interessavam apenas pra lhe dar a alegria de me ajudar e era maravilhoso o tanto que ele ficava feliz quando eu fazia isso. Lukas era o primeiro que havia se aproximado de mim desde que eu abandoei Carlisle e Edward; e curiosamente os seus encantos estavam preenchendo o vazio que vivia no meu peito.

Mas, eu precisava partir… As pesquisas em Vasteras não me deram as respostas precisas e eu não podia deixar de procurar. Depois de longos treze meses, eu entrei na biblioteca uma última vez… Apenas para me despedir dele e me preparar para a solidão de novo. A voz de Layla pareceu sorrir para mim de uma forma meio entristecida – a dor estava abafando as suas palavras tão distantes. Eu nunca ouvi a mente de Lukas e nem a de qualquer outro humano se eu podia evitar isso, gostava de satisfazer a minha curiosidade por eles de uma forma mais analítica e, para falar a verdade, a lerdeza e a complexidade de seus pensamentos também me irritavam. Ela riu; baixo e suave.

Quando eu disse para ele que estava partindo… A expressão que atravessou seu rosto foi muito dolorosa para mim e eu primeiramente não entendi o porquê. Depois de muito insistir, ele me contou porque estava tão infeliz. Ele disse: “A pessoa que eu mais amo no mundo está me abandonando… Como você queria que eu me sentisse?”. Eu me lembro exatamente de suas palavras, foram as mais lindas que eu ouvi na escuridão da minha existência e foi então que eu descobri porque estava tão relutante em partir… O curioso era que eu também o amava… Amava imensamente um simples humano.

Aquilo me surpreendeu. Eu estava muito agradecida pela mão de Edward me guiando fielmente – estive tão envolvida em sua história que há muito já não sabia o caminho para a campina. A história que era contada pela voz de Layla me lembrou muito da minha própria história com Edward – as lembranças mais perfeitas da minha vida humana – mas, não era a história de amor mais comum do mundo e eu sinceramente não esperava que existissem outras experiências maravilhosas quanto a que eu tinha vivenciado – especialmente que fosse essa a história de Layla. Em parte eu estava me sentindo reconfortada por isso; mais alguém então entendia a felicidade que Edward representava na minha vida. Embora que nesse caso, os papéis estivessem trocados.

Eu fiquei extremamente surpresa quando ele me disse que sempre soube o que eu era – uma vampira. A voz de Layla continuou ignorando a minha surpresa. A pele branca e os traços perfeitamente suavizados me denunciaram á ele, mas a única coisa que ele não sabia explicar eram os meus olhos intensamente azuis, e ao que parece foi graças á isso que ele se permitiu a aproximar de mim. Lukas me disse que uma vampira de olhos azuis não poderia ser tão ameaçadora… E claro, eu não contei a verdade que iria contradizer as suas palavras. Egoísta, eu estava feliz por tê-lo comigo. A pausa sutil de Layla resultou em um fraco suspiro nos meus pensamentos. Parte de mim estava consciente dos perigos que ele corria toda vez que estávamos juntos, me dizia para que fosse embora e o deixasse ter a oportunidade de alguém amá-lo dignamente… Mas, eu estava muito feliz por estar com ele e, na verdade, tinha medo de encarar a solidão novamente… Um tom sombrio tingiu a sua voz. Mas eu sei que deveria tê-lo deixado.

Não… Eu me senti completamente estranha por estar respondendo á ela nos meus pensamentos, mas precisava fazê-la entender isso. Quando Edward me deixou, foi simplesmente insuportável… Apenas a lembrança daquela época já era dolorosa e eu instintivamente apertei a mão dele ainda presa firmemente na minha, esperando que Layla tivesse entendido o que eu não consegui continuar lhe contando. Aqueles meses – os mais escuros da minha vida –, o buraco no meu peito e todo o sofrimento era angustiante e eu desejava que mais ninguém tivesse que enfrentar o mesmo que eu. Você não imagina o tanto que teria machucado-o se tivesse partido. Eu sabia.

Mas talvez se eu tivesse partido teria sido melhor, Bella. Em meus pensamentos a voz de Layla se tornou perceptivelmente mais dolorosa e eu senti o meu coração já adormecido apertar intensamente no meu peito. A minha história pode até ser muito parecida com a sua… Eu acho que é devido á isso que sinto muita afinidade por você e Edward, mas infelizmente, eu não tive o meu final feliz… Eu sabia que não. Layla desde o começo havia deixado claro isso com a sua voz atormentada no passado. Sim… Eu sinto muito Bella, mas a minha história não é a mais perfeita de todas… Novamente a sua pausa tensa resultou em um profundo suspiro antes de ela recomeçar. Eu passei os cinco melhores anos da minha vida com ele. Como eu disse antes, o meu controle já estava bem definido e emocionalmente controlado, então, nós pudemos explorar mais os nossos sentimentos… Luke era tão parte de mim que não conseguia imaginar a vida sem ele e eu sentia que ele também era feliz comigo… O que mais me encantava nele, era que nunca eu havia sido tratada diferente. Ele confiava em mim… Coisa da qual eu não era digna. Ela pausou novamente e o silêncio estava muito desconfortante.

O que aconteceu com o Lukas, Layla?

Ela não respondeu á minha mente confusa – o silêncio tenso ainda estava me deixando incomodada – e me perguntei se pelo menos ela tinha ouvido o meu último pensamento. Apesar da imensa vontade de reforçar a curiosidade que transbordava eu permaneci calada deixando-a ter um momento para se recuperar… Algo em mim dizia saber o final da história que a voz agoniada de Layla não ousou continuar.

As risadas suaves de Renesmee me despertaram depois de algum tempo e eu notei que realmente estive alheia aos outros enquanto ouvia a triste história de uma safira. Ao meu lado percebi o que tinha despertado o som divertido de minha filha: Jacob e Emmett carregavam expressões maliciosas que eu rapidamente compreendi – mesmo que um deles fosse um lobo. Eles estavam competindo, possivelmente para ver quem alcançaria Layla antes… Estava realmente divertido de assistir – os passos bruscos e velozes deixavam impossível de identificar quem estava ganhando, mas eu adoraria ver Emmett perder para um lobo. Eu já podia imaginar sua expressão.

O canto dos pássaros ao alto das árvores reconfortou os meus ouvidos e fez o silêncio deixado por Layla se tornar mais suave. Eu me deixei levar novamente pelas sensações do vento contra o meu corpo – não havia palavras suficientes para dizer o quanto era agradável – e mais uma vez olhei na direção da safira que corria graciosa na minha frente. Os meus pensamentos estavam vagamente conscientes quando os dedos elegantes de Layla tocaram sutilmente a aliança na sua mão – como sempre eu estava presa em sua beleza –, e percebi que a sua corrida se tornou selvagem de forma que ninguém a alcançaria. Eu me perguntei no que ela estava pensando.

Era dia 13 de abril de 1941, o nosso aniversário de compromisso… Eu percebi os seus passos diminuírem um pouco enquanto a história ganhava voz dentro da minha mente – me levanto ao passado mais uma vez. Nós estávamos acampando em meio á um vale, de paisagem esplendida, que eu encontrei em uma região perto de Vasteras, e estávamos parecendo dois adolescentes completamente normais e apaixonados… Pelo menos ele… Apesar do tom de escárnio a voz de Layla endureceu. Eu sabia que esse dia ainda chegaria, mas pensava que seria capaz de me controlar se acontecesse… Nós estávamos caminhando entre as pedras, conversando sobre nós e Lukas disse que tinha algo muito importante para me perguntar. Ele estava muito nervoso, nunca esquecerei a sua expressão, mas, foi devido á isso que distraidamente ele pisou em falso e acabou escorregando pelas rochas pontudas que nos circundavam fazendo o seu sangue correr caloroso pela perna… O cheiro era simplesmente muito bom, morno, tão delicioso que nem o meu grande amor por ele foi capaz de deter o monstro que existia em mim.

A minha garganta queimou conforme as palavras de Layla se afundavam entre os meus pensamentos e eu fiz um tremendo esforço para afastar essa sensação. Não estava sendo fácil para ela me contar essa história e a minha sede não ajudava.

Algo na minha mente estava tentando me despertar, eu sentia isso, mas não foi o suficiente para me impedir… Eu nunca vou esquecer a sua expressão… O jeito que ele me olhou – implorativo e apaixonado; tentando dizer algo que sua voz não conseguia… Eu o matei, Bella… Eu matei o único e grande amor de toda a minha vida… A amargura de suas palavras arranhou dolorosamente nos meus pensamentos. Os meus poderes estavam completamente desorganizados quando eu o ataquei e eu pude ouvir a última coisa que percorreu a sua mente antes de beber todo o seu sangue… “Eu te amo…”, ele estava pensando. “Eu sempre irei te amar!”… Eu sentia que ele estava tentando me dizer alguma coisa mais e eu queria continuar ouvindo aquela voz carinhosa que estava me perdoando por ser um monstro, mas… Era tarde demais, Bella. Ele me deixou. Uma inexplicável angústia tomou conta de suas palavras nesse último momento.Este anel estava em seu bolso… Esperando por um futuro que não viria mais… Nunca mais, Bella.

Eu não sabia descrever a dor que percorreu o meu corpo em efeito ao que ela havia acabado de me contar – era excruciante de tal forma que eu sentia vagamente o desejo de chorar; deixando que o sofrimento dentro de mim fosse libertado.

Meus olhos procuraram esfomeados por Edward e então ele estava lá – lindo e glorioso ao meu lado – carregando em suas costas a nossa filha; fruto da história de amor em que nenhuma palavra se encaixava melhor do que “eles foram felizes para sempre…”. Eu havia conseguido meu final feliz e não havia motivo para o desespero que percorria o meu corpo naquele instante, mas apenas a idéia de que nosso futuro também poderia ter sido diferente me dilacerava. Mesmo que eu ainda precisasse de muitos anos nessa vida para entender pelo menos um pouco da dor na voz de Layla, eu pude ter a perspectiva – ainda que distante – do quanto ela deve ter sofrido com o seu passado e a solidão durante todo esse tempo em que ela não esteve conosco. Apenas imaginar um mundo que eu não estivesse com Edward já me sufocava.

Eu voltei com a minha atenção para Layla – os passos continuavam uniformes e muito elegantes –, mas eu fiquei imaginando qual deveria ser a sua expressão… Eu queria muito poder dizer alguma coisa á ela – qualquer coisa que pudesse confortá-la da angústia –, mas não conseguia encontrar as palavras. Eu sinto muito Layla…

Não se preocupe comigo, Bella… Eu tive setenta e oito anos para aprender lidar com o vazio e a solidão no meu peito, e eu sei que mereço isso, nunca vou me perdoar. A dor que estava no meu coração eu sabia que não era nem mesmo a metade da que estava na voz de Layla. Eu desejei muitas vezes acabar com esse sofrimento… A minha vida não possuía mais brilho sem Lukas e eu não queria viver mais nessa sombra, então pensei em inúmeras maneiras de aliviar essa dor que me levassem ao inferno, onde é o meu lugar… Se não tivesse me encontrado com um vampiro tão poderoso quanto Alice eu já não estaria mais aqui… Eu não saberia que vocês precisariam de mim no futuro e já teria partido há muito… Mas eu agüentei Bella, vocês precisavam de mim, Carlisle e Edward precisavam de mim, então eu agüentei… Eu me obriguei a ser forte, voltei com as minhas pesquisas e viajei pelo mundo atrás de qualquer história que me ensinasse a origem de minha espécie, eu queria ser segura á vocês… Eu sei que terei o meu castigo quando o tempo for certo, Bella, mas agora o mais importante é protegê-los.

Obrigada… Eu precisava muito dizer aquilo. Não só por você está aqui conosco e nos protegendo, mas por você também ter me a chance de conhecê-la melhor.

Obrigada você, Bella. Eu estou realmente feliz por ter te contado isso.

A fraca claridade alguns metros á nossa frente mostrava que estávamos perto da campina e eu olhei para a aliança na mão de Layla mais uma vez. Um inesperado e teimoso raio de sol atravessou a penumbra da floresta antes de sairmos em direção á névoa que cobria o verde da clareira e inocentemente refletiu no ouro do anel em sua mão. Eu fiquei extremamente surpresa quando os meus olhos visualizaram algo diferente naquela aliança, algo que antes o choque de sua história não me fez capaz de focalizar. O coração adormecido no meu peito se apertou ao ver o que era.

Uma insígnia. “Eu amo você por toda a eternidade. 13 de abril de 1941”.

2 comentários:

Paula disse...

uma história muito triste essa da Layla. Matar o proprio amor, e ainda ter que suportar a dor durante anos para poder ajudar os Cullens. Muito  bondosa... espero que ela sobreviva no final da fic....

BellaCullen disse...

Taadinha de Layla, matou seu verdadeiro amoor e aiinda consegui viver com isso :'(

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