E Se Jasper Não Se Transformasse... - Capítulo 02: Joe

[Jasper]

Meu pai não havia chego em casa ainda, e mamãe não estava preocupada.

Por que será? Ela sempre ficava eufórica quando demorávamos...

- Mãe, onde está Joe?

- Ah, filho, ele saiu para concertar alguns móveis e lamparinas na casa de sua avó, mas ele está demorando demais... Estou começando a me preocupar, sabe...

- Estou com o cavalo aqui, quer que eu vá atrás dele? – ofereci.

- Não, não, meu filho, por favor, não vá!

- Acalme-se mãe, eu irei voltar!

- Ah, não, Jasper, prefiro que você fique aqui comigo!

- Mas e se aconteceu algo com ele?

- Ai minha Nossa Senhora... – ok, eu não devia ter falado isso... – Será que aconteceu algo? Ai minha Virgem Maria...

- Ok, ok, mãe, relaxa! Eu vou atrás de Joe!

- Nãaao!

- Mãe, eu não vou demorar, ok?!

- Mas...

- Não se preocupe, mãe! Eu vou e já volto!

Saí antes que ela pudesse me impedir. Passei pelo sofá em que Cris continuava dormindo. Minha mãe me seguia, mas não tentava me impedir, então aproveitei.

- Tente levar Cris para meu quarto, se não conseguir, peça ajuda de um dos escravos...

Mary simplesmente aceitou sem falar mais nada, mas eu percebi que ela estava tensa. Estava com medo de que eu fosse embora novamente e não voltasse.

- Mãe, não se preocupe, eu já disse que voltarei! – disse já desatando a corda do cavalo amarrado aqui na varanda.

- Você promete?

- É claro que prometo! Voltarei!

Ela fez sinal positivo e então montei e saí a galope.

A casa de minha avó, Edimary, não ficava muito longe de minha casa. Uns, digamos, dois quilômetros só... Pelo menos, era a quantia que eu esperava que fosse...

A noite continuava escura, mas eu podia ver alguns finos e delicados raios do Sol surgindo lá no horizonte. Logo, o dia já estaria nascendo, e isso me ajudaria a chegar mais rápido na casa de minha avó – pelo menos, ficaria mais claro, e assim eu poderia correr mais...

Amanheceu.

Eu estava perto da casa de minha avó – realmente não demorava mesmo para chegar...

Parei na frente da casa e desmontei do cavalo. O amarrei em uma árvore. Fui até a porta, mas não bati de primeira, fiquei observando pelas vidraças da porta se havia algum movimento lá dentro. Nada!

Fui até a janela. Também nenhum movimento. Tudo estava em completo silêncio!

Eu estava começando a me preocupar quando ouvi um estalo seguido de um urro. Aquilo não veio da cozinha nem da sala, muito menos dos quartos... Vinha do porão, é claro! Se meu pai estava arrumando as coisas para minha avó, ele só poderia ficar no cômodo mais distante do quarto dela!

Fui até a lateral da casa, onde havia duas portinhas antigas no chão – a maioria das casas tem isso... Só a minha que não!

Mexi nelas e vi que elas estavam destrancadas. Abri e entrei. Estava claro lá dentro e então ouvi alguém parar de súbito – ele devia ter se assustado com o barulho de meu coturno batendo na madeira oca da escadinha.

Conforme fui descendo, a claridade foi me mostrando a realidade lá debaixo. As mesas estavam todas bagunçadas cheias de objetos em cima... Eu nem sabia dizer o que eram. Só sabia que alguns deles eram ferramentas de ferro – provavelmente, seriam para desparafusar os objetos quebrados.

Os armários estavam abarrotados de pequenas coisinhas quebradas... As mesas estavam com um monte de objetos separados... O chão estava cheio de sujeira... Ao fundo de toda essa bagunça, um senhor de aparência tensa estava preparado para atacar segurando algo.

Ok, eu não via o senhor, mas via a sua sombra, e ele realmente estava preparado para atacar.

Bom, recebi treinamento de como agir nesse momento, então comecei a andar sorrateiramente – se ele me atacar, eu saberei como desviar.

Quase chegando lá, o que eu esperava aconteceu! Ele me atacou em uma fúria tremenda! Desviei de seu ataque, mas vi que o martelo de sua mão por pouco acertou meu ombro. Se acertasse, era uma vez um ombro...

Então ele tomou fôlego para um novo ataque, mas consegui segurar seu braço primeiro.

Foi assim que nossas faces ficaram frente a frente, uma da outra.

- Pai? O que faz com um martelo?

- Jasper, filho!

Ele largou o martelo que passou raspando de meu pé – eu sempre odiei martelos, e agora eu percebia que martelos também me odiavam...

Ele me abraçou com força, e eu retribui o abraço. Fiquei um tempo em seus braços, e então ouvi alguns soluços... Meu pai estava chorando, e essa cena era uma dádiva... Eu estava presenciando o choro de meu pai e essa era, provavelmente, a única vez que eu o via nessas situações em toda minha vida.

Não... Na verdade, não... Ele tinha derramado algumas lágrimas quando... quando... Respirei fundo, eu não poderia ter mais problemas como esses... Quando meu irmão caiu no poço!

- Jasper – ele disse se afastando de meus braços, seus olhos ainda estavam transbordando de felicidade. – Você voltou?

- Sim, voltei!

- Deus seja agraciado! – ele disse e voltou a me abraçar.

Depois de toda essa cena, ele se afastou e se sentou em uma banquetinha. Fez sinal para que eu sentasse lá também, então puxei um banquinho e lá me acomodei.

- Como foi que você voltou?

- Eu estava trazendo algumas pessoas inocentes para cá a comando de meu tenente, mas... Bem, eu trouxe uma menina para ficar com vocês, mas achei melhor ficar junto dela... Nós nos demos muito bem e eu fiquei incerto se ela se daria bem com vocês...

- Como ela chama?

- Cristina, mas gosta que a chamem de Cris.

- Ela vai ficar conosco? – ele não tinha ido para casa para saber de Cris.

- Sim, a mãe sempre quis ter uma filha mesmo...

- Onde você a encontrou? Ela não é sua filha não, não é?! – Deus, no que é que meu pai estava pensando?!

- Não, pelo amor de Deus, pai! Eu saí de casa há pouco mais de dois ou três meses, não tem como eu ter uma filha de nove anos?!

- Ah... – ele disse envergonhado. – Ela é de onde?

- De Galveston. Sua família foi toda dizimada pelos soldados inimigos, então um de nossos soldados a pegou para trazê-la a um local seguro. E aconteceu que quando estavam todos lá na base, ela chegou e ficou sozinha, e acabei me identificando com ela... Nos tornamos grandes amigos...

- Ah, sim... Bem, estou curioso quanto a ela agora!

- Que bom. Tenho certeza de que o senhor irá gostar muito dela!

- Bem, e quando você decidiu que iria ficar e deixar o exército?

- Cris precisa de mim! Ela estava acostumada comigo, e eu temo que ela não se adapte sozinha... – era a maior mentira que eu já tinha contado em toda minha vida!

- Mas se ela ficará conosco...

- Eu sei, mas é que ela é muito tímida... Ela não se abre com todos... Eu tive a sorte de encontrá-la!

- Bem, então está tudo bem! E o exército? Eles sabem que você não voltará?

- Então... Por enquanto não me pronunciei a respeito para eles...

- Bem, então não se preocupe! Irei eu mesmo até a base aqui em Houston e os avisarei que você está enfermo, e que não poderá continuar com o exército...

- Pai... você tem... certeza de que quer fazer isso o senhor mesmo?

- Sim, filho. Eu já perdi você uma vez, não quero perder outra! Nunca vi sua mãe tão triste depois que você partiu! Você tentou amenizar a dor, mas isso não dependia de você!

- Mas é que...

- Jasper, sua mãe estava triste por saber que você estava triste e ela não podia fazer nada! Isso a magoava muito! Vê-lo partir foi mais difícil ainda do que saber que um filho tinha falecido!

- Não fale de...

- Mary sempre amou e deu mais atenção a você, que era o caçula, do que com Bryan... Bryan era o mais velho e mais bruto... Ele se metia em muitas confusões, e isso era motivo para que ela desse mais atenção a ele, mas eu me responsabilizava por ele, enquanto ela cuidava de você!

- A mãe já disse alguma coisa a respeito disso, mas pai...

- Se ela já falou, então não me venha com “mas”... Eu irei hoje mesmo pela manhã até um médico. Creio que será melhor se eu procurar pelo doutor Williams, que já é um conhecido da família! Vou pedir para que ele escreva um pedido de afastamento definitivo do exército para você!

- Mas você acha que vai dar certo?

- Claro que vai! E eles que insistam em não aceitar! Não quero que você volte para lá!

- Será que eles vão deixar mesmo tudo como está? Será que eles não viram até em casa para ver meu estado?!

- Claro que não irão vê-lo, pois posso dizer que você pegou... hmmm... lepra!

- Ergh... Pai, por favor... – éca...

- Ok, então... Pneumonia!

- Mas... pneumonia... eu... não sei...

- Vai dar certo! Não quero que você volte para lá, no Exército!

- Não sei se dará certo!

- Pois eu falo que é contagioso! Quero ver eles se aproximarem de você!

- Mas, assim ninguém, ninguém mesmo, chegará perto de mim!

- Sim, mas essa é a intenção!

- E se alguém depois vier falar que será preciso levar Cris, por causa da doença? Ela é só uma criança!

- Então digamos que o doutor prescreveu medicamentos em testes para ela e para o resto dos presentes em casa, e que por causa disso, podemos ficar junto de você!

- Mas... Ah, não sei pai!

- Vai dar tudo certo, meu filho! Depois de algum tempo, o exército nem se lembrará mais de você, e então você poderá seguir com sua vida normalmente!

- Depois de algum tempo? Quando tempo, mais especificamente?!

- Enquanto a guerra durar!

- Nossa!

- O que foi? Não gosta da ideia?

- É que, pelo que ouvi, os planos são de que a guerra se estenderá enquanto eles puderem lutar pelos ideias...

- E...

- E isso significa que eles farão milagres para continuar a guerra!

- E como você ouviu isso? De quem ouviu?

- Ouvi do próprio tenente e dos generais da base em Galveston!

- Filho, que coisa feia se espreitando para ouvir a conversa alheia!

- Mas eu não fiquei me “espreitando”!

- Não, filho? Então como soube?

- Eu sou Major, então sempre fiz parte das reuniões!

- Major?! – ele se assustou, mas logo em seguida percebi que ele estava feliz. – Meu filho é um Major? Meu Deus, você deve ser o Major mais jovem do mundo!

- Sim, o tenente disse o mesmo, mas ele não sabia que eu era literalmente o mais jovem de todos...

- Como assim? – ele ficou bem confuso.

- Eles só estão aceitando jovens com mais de vinte anos, e eu tinha dezesseis, mas completei dezessete já sendo Major!

- Filho, que ótima notícia! Você é o orgulho da família!

- Obrigado... – eu disse acanhado. Era raro ouvir algum elogio de meu pai... Talvez, com esse tempo longe, ele tenha aberto seu coração em casa... Finalmente, a casca dura tinha sido deixada de lado!

- Você mentiu então para entrar?

- Sim, tive que mentir!

- Isso não é algo que se deva orgulhar, Jasper!

- Eu sei que foi errado, mas eu queria aquilo... E esse foi o jeito que eu encontrei para conseguir!

- Bem, pelo menos você soube se virar sozinho... Isso é o que realmente importa!

4 comentários:

Erika ♥ disse...

Não disse que não tinha gostado, disse que foi inesperado, é uma idéia nova, mas eu estou gostando. E, sobre eu não conseguir imaginar a história, eu quis dizer que eu fico tentando imaginar, estou ansiosa para continuar lendo e ver como termina. Eu gostei dessa fic. =D

Erika ♥ disse...

Interessante, mas não vejo como poderia ser uma história de Jasper humano, simplesmente não consigo imaginar ele assim. Mas pelo jeito essa história vai surpreender-me, já que é tão bem escrita.

Vivisrolling disse...

Ah... eu gostei dessa fic.. li ela lá no blog das meninas... no mereço um castelo... só achei triste o final.. ='(

Maria B.S. disse...

Que fofinha essa fanfic, to gostando muito!

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